Metodologias para avaliar a capacidade de carga: ensaios e resultados

Conheça os ensaios geotécnicos estáticos e dinâmicos aplicados às fundações. Avalie capacidade de carga, integridade estrutural e mais!

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Por Tiago Fernandes

Engenheiro Civil Geotécnico

CREA/CONFEA 1422269183

A etapa de investigação da capacidade de carga e controle de qualidade é um pilar determinante para a segurança e a viabilidade econômica de qualquer empreendimento de engenharia civil.

Nesse contexto, os ensaios geotécnicos aplicados às fundações atuam como instrumentos para validar o desempenho dos elementos estruturais in loco.

Mais do que uma simples conferência, esses ensaios permitem confrontar as premissas estabelecidas durante a fase de dimensionamento com a resposta real do sistema fundação-solo, garantindo o atendimento rigoroso às especificações de projeto.

Essas verificações fornecem parâmetros precisos sobre a capacidade de carga e o comportamento deformacional das estacas quando recebem os esforços de serviço.

A interpretação desses dados é fundamental para mitigar riscos de recalques excessivos ou falhas estruturais.

De acordo com a natureza da solicitação e os objetivos da análise, os métodos de avaliação se dividem em duas categorias principais: ensaios estáticos e ensaios dinâmicos.

Os ensaios estáticos determinam a capacidade de carga das fundações através da aplicação de cargas conhecidas de forma crescente e em estágios de tempo iguais.

Simultaneamente, a equipe registra os deslocamentos correspondentes, que são monitorados até alcançar a carga máxima programada. Em seguida executa-se o descarregamento.

Já os ensaios dinâmicos, visam verificar o comportamento da interação entre o elemento de fundação e o solo através da aplicação de uma força de impacto no topo da estaca, permitindo a avaliação da capacidade de carga e da integridade da estaca.

1- Ensaios Estáticos

Prova de Carga Estática (PCE)

A Prova de Carga Estática (PCE) consolidou-se como o método mais confiável para determinar a capacidade de suporte e o comportamento tensão-deformação de uma fundação. Seu objetivo central é estabelecer a correlação entre a carga aplicada e o deslocamento vertical (recalque) do elemento, permitindo a construção da curva carga-recalque.

O ensaio é realizado através da aplicação de cargas conhecidas e crescentes sobre o topo da estaca. A força é gerada por macacos hidráulicos e absorvida por um sistema de reação que pode ser feito através de tirantes nos elementos próximos, ou por um sistema de reação helicoidal.

Figura 1, Realização do ensaio de PCE

A equipe aplica a carga em estágios, com intervalos de tempo definidos pela norma NBR 16903/2020.

A equipe monitora esses intervalos até que seja atingida a carga máxima programada, que tipicamente corresponde a duas vezes a carga de trabalho prevista em projeto, ou até a caracterização da ruptura geotécnica e perda do atrito lateral do elemento.

Simultaneamente, a equipe registra os deslocamentos (recalques). Em seguida, executa-se o descarregamento da estaca.

O principal produto da PCE é o gráfico carga versus deslocamento, uma ferramenta analítica onde a curva se constrói a partir da plotagem dos pontos estabilizados ao final de cada estágio.

A análise dessa curva desempenha papel fundamental, pois permite determinar a capacidade de carga última e prever como a estrutura se comportará sob as cargas reais de serviço.

Gráfico Carga x Deslocamento

Figura 2, Gráfico Carga x Deslocamento

Este gráfico é a representação da resposta da fundação e do solo ao carregamento. A curva descendente serve como parâmetro para visualização e entendimento dos resultados, facilitando a comparação entre diferentes resultados. A curva superior representa o carregamento, e a inferior, o descarregamento.

Ensaio de Placa (Prova de Carga Estática sobre Placa)

O ensaio de placa ocorre quando há o interesse de definir qual é a capacidade de suporte superficial do solo, o coeficiente de reação vertical e a estimativa de recalques para fundações diretas.

Nesta metodologia, aplica-se uma carga estática sobre uma placa de aço rígida, geralmente com diâmetros de 30 cm, 45 cm ou 80 cm, ou formatos quadrados equivalentes, posicionada diretamente sobre o solo a ser investigado.

O carregamento ocorre por meio de macacos hidráulicos. Para viabilizar a aplicação da força, é necessária uma estrutura de reação robusta; costuma-se utilizar o peso operacional de maquinários pesados, como escavadeiras hidráulicas, retroescavadeiras ou caminhões carregados, desde que a massa desses equipamentos exceda significativamente a carga máxima a ser atingida no ensaio, para evitar o levantamento do sistema.

O principal resultado consiste no gráfico da relação entre carga aplicada e deslocamento vertical da placa, expresso por meio da curva carga versus deslocamento, de forma análoga ao ensaio de Prova de Carga Estática (PCE).

Realização de um Ensaio de Placa

Figura 3, Realização de um Ensaio de Placa

2- Ensaios Dinâmicos

Ensaio de Integridade de Estacas (PIT), Baixa Deformação

O PIT (Pile Integrity Test) destina-se à verificação da integridade estrutural das estacas e consiste em um ensaio não destrutivo.

Por ser um método rápido, prático e de fácil execução, o PIT permite a avaliação de muitas estacas em um curto intervalo de tempo, agregando uma vantagem para verificar a integridade quando comparado a ensaios dinâmicos mais complexos.

Figura 4, Realização de um ensaio PIT

O ensaio consiste na aplicação de um golpe de baixa energia no topo da estaca, geralmente com o auxílio de um martelo manual.

Um acelerômetro fixa-se na cabeça da estaca para registrar a propagação da onda de tensão gerada pelo impacto.

À medida que a onda se propaga ao longo do fuste, ocorrem reflexões sempre que há variações nas propriedades geométricas ou mecânicas da estaca, como mudanças de seção ou defeitos no material.

Figura 5, Resultados do ensaio PIT

O resultado do ensaio apresenta-se na forma de um gráfico de velocidade em função da profundidade, cuja interpretação permite identificar possíveis anomalias.

Reflexões positivas indicam reduções de seção, e reflexões negativas associam-se a aumentos de seção, que nem sempre representam problemas estruturais.

Embora o PIT não forneça diretamente a capacidade de carga da estaca, ele se consolida como ferramenta amplamente utilizada para o controle de qualidade e a verificação da integridade em massa.

Prova de Carga Dinâmica (PDA)

O PDA (Pile Driving Analyzer) é o ensaio dinâmico que tem como objetivo central a avaliação da capacidade de carga e da integridade da estaca.

Este procedimento funciona como uma ferramenta de verificação do desempenho do elemento estrutural, permitindo diagnosticar se a estaca mantém sua continuidade física e se possui a resistência necessária conforme o projeto.

O PDA ocorre por meio da aplicação de um ciclo de golpes sucessivos na cabeça da estaca, gerando uma força de impacto que permite medir a interação entre o elemento de fundação e o solo. Esses golpes são interrompidos quando ocorre a ruptura do bloco ou quando se atinge duas vezes o valor da carga do elemento.

Figura 6, Execução de Ensaios de Carregamento Dinâmico

Durante a execução do ensaio, sensores de deformação e acelerômetros fixam-se na estaca para registrar os valores de força e velocidade associados à propagação das ondas de tensão.

A partir desses registros, obtêm-se informações como o comprimento total e o comprimento cravado da estaca, a resistência à penetração durante o ensaio, os valores de força de compressão e deslocamento, além de propriedades dinâmicas do material, como módulo de elasticidade, densidade e velocidade de propagação das ondas.

A interpretação dos dados ocorre com base na Teoria da Análise de Ondas, por meio do método numérico CAPWAP (Case Pile Wave Analysis Program).

Essa análise permite estimar a capacidade de carga estática equivalente da estaca, além de decompor a resistência total em componentes de resistência de ponta e de atrito lateral.

Além disso, a análise das ondas fornece dados para a verificação da integridade estrutural da estaca ao longo de seu comprimento.

Figura 7, Resultados do ensaio PDA

Ensaios Geotécnicos

Os ensaios geotécnicos aplicados às fundações desempenham papel fundamental na verificação do desempenho estrutural e na redução dos riscos associados ao comportamento do solo e das estacas.

A aplicação de ensaios estáticos e dinâmicos possibilita avaliar a capacidade de carga, a integridade estrutural e o comportamento dos recalques dos sistemas de fundação, fornecendo subsídios técnicos tanto para a validação dos projetos quanto para o controle de qualidade da execução.

Enquanto os ensaios estáticos, como a Prova de Carga Estática e o Ensaio de Placa, fornecem uma representação direta da relação carga-deslocamento, permitindo analisar o comportamento deformacional da fundação, os ensaios dinâmicos, como o PIT e o PDA, viabilizam verificar a integridade das estacas e, no caso do PDA, também estimar a capacidade de carga.

Assim, a escolha adequada da metodologia, aliada à correta interpretação dos resultados, contribui de forma decisiva para assegurar a segurança, o desempenho e a durabilidade das obras de engenharia.

Referências Bibliográficas:

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR 6122:2019, Projeto e execução de fundações. Rio de Janeiro: ABNT. (Norma Brasileira).

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR 13208:2007, Estacas, Ensaios de carregamento dinâmico. Rio de Janeiro: ABNT. (Norma Brasileira).

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR 6489:2019, Solo, Prova de carga direta sobre terreno de fundação, Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT. (Norma Brasileira).

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR 16903:2020, Solo, Solo, Prova de carga estática em fundação profunda. Rio de Janeiro: ABNT. (Norma Brasileira).

CINTRA, J. C. A.; AOKI, N.; TSUCHIYA, T.; GIACHETI, H. L. Ensaios estáticos e dinâmicos de fundações. São Paulo: Oficina de Textos, 2013.