Prova de carga bidirecional x convencional: execução e interpretação

Entenda as diferenças entre prova de carga bidirecional x convencional, métodos de ensaio e curva equivalente. Veja a análise técnica com a Geoteste.

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Por Alexandre Gontijo

Engenheiro Civil Geotécnico

CREA/CONFEA 1404815503

O controle de desempenho de fundações profundas constitui uma etapa determinante para a validação dos modelos de cálculo geotécnico e para a garantia dos estados limites últimos e de serviço da estrutura. No Brasil, as diretrizes da ABNT NBR 6122:2022 estabelecem critérios objetivos para a verificação de desempenho de estacas e tubulões por meio de provas de carga. No universo dos ensaios estáticos, a discussão técnica com frequência converge para a comparação entre dois procedimentos de carregamento axial: a prova de carga estática convencional no topo da estaca e o ensaio com carregamento interno em profundidade, conhecido como ensaio bidirecional.

Embora ambos os procedimentos tenham por finalidade primária analisar a interação solo-estrutura e a resposta carga-deslocamento do elemento de fundação, os mecanismos de transferência de tensões durante a execução do ensaio são fundamentalmente distintos. Enquanto o ensaio no topo empurra a estaca a partir de sua cabeça contra uma reação externa, o ensaio interno utiliza uma célula expansiva hidrodinâmica montada na armadura em profundidade, dividindo o elemento estrutural em dois segmentos que reagem mutuamente. Essa distinção física exige abordagens analíticas específicas para que os resultados obtidos em campo possam ser comparados e aplicados no dimensionamento das fundações.

Mecanismo físico do carregamento no topo versus carregamento interno

Na prova de carga estática convencional (PCE), regida no Brasil pela ABNT NBR 16903:2020 e internacionalmente pela ASTM D1143/D1143M-26, a força axial de compressão é aplicada diretamente na seção do topo do elemento por meio de um ou mais macacos hidráulicos. Esse conjunto hidráulico apoia-se contra um sistema de reação externo, constituído por vigas metálicas conectadas a tirantes ancorados no terreno, estacas de tração vizinhas ou, em situações específicas, uma plataforma de cargueiro com blocos de concreto ou perfis metálicos.

Sob essa condição de contorno, a carga se propaga de cima para baixo ao longo do fuste da estaca. À medida que o carregamento é incrementado, ocorre a deformação elástica progressiva do concreto e do aço, gerando deslocamentos relativos entre o fuste e o maciço de solo circundante. O atrito lateral é mobilizado no sentido ascendente contra o movimento descendente da estaca. Se a carga aplicada for suficiente para transferir tensões até a extremidade inferior do elemento, a ponta da estaca sofre recalque e mobiliza a sua resistência de base. O deslocamento medido na cabeça da estaca reflete o somatório do encurtamento elástico de todo o fuste e do recalque da ponta.

No ensaio bidirecional, padronizado internacionalmente pela ASTM D8169/D8169M-26, o carregamento é gerado no interior do corpo da estaca. Uma ou mais células expansivas hidrodinâmicas, do tipo célula de Osterberg ou equivalente nacional, são acopladas à gaiola de armadura e concretadas em uma profundidade previamente determinada no projeto do ensaio. Ao se injetar fluido pressurizado na célula, ela se abre verticalmente, empurrando o segmento superior da estaca para cima e o segmento inferior para baixo.

Nesse arranjo, o segmento superior atua como reação para o segmento inferior, e vice-versa. Para o trecho de estaca localizado acima da célula expansiva, o atrito lateral é mobilizado no sentido descendente, atuando em cisalhamento como uma estaca tracionada, somando-se à resistência o peso próprio do concreto desse trecho. Para o trecho localizado abaixo da célula, a força empurra a base contra o solo ou rocha de apoio, mobilizando a resistência de ponta e eventual atrito lateral do fuste inferior, no mesmo sentido da compressão convencional. Portanto, o ensaio bidirecional elimina por completo a necessidade de vigas de reação externas, tirantes de ancoragem ou estacas de reação na superfície.

Diferenças operacionais e logísticas de campo

As características físicas de cada ensaio repercutem diretamente no canteiro de obras, influenciando custos de mobilização, cronograma de execução, requisitos de espaço físico e capacidade máxima de carga atingível. A seguir, destacam-se os principais contrastes operacionais observados entre a prova de carga estática convencional e o ensaio bidirecional:

  • Espaço físico e interferências: a PCE convencional requer uma área livre expressiva no canteiro de obras para a montagem de vigas de transição de grande porte, além do posicionamento de estacas de reação a distâncias mínimas que evitem a interferência mútua de tensões, conforme previsto na ABNT NBR 16903:2020. O ensaio bidirecional concentra toda a operação no alinhamento da estaca de teste, liberando o entorno da obra para a circulação de equipamentos.
  • Capacidade máxima de força: na prova de carga convencional de altíssima tonelagem, acima de 1500 a 2000 toneladas-força, as vigas metálicas de reação tornam-se elementos de proporções gigantescas, encarecendo o transporte e elevando o risco operacional. A célula expansiva hidrodinâmica instalada no interior da estaca pode aplicar cargas elevadas sem requerer estrutura superficial, atingindo forças combinadas de dezenas de milhares de quilonewtons apenas pelo aumento do número e porte das células.
  • Definição prévia do elemento de ensaio: a estaca que receberá o ensaio bidirecional precisa ser selecionada antes de sua perfuração ou concretagem, visto que a célula deve ser acoplada à armadura durante a montagem com as tubulações hidráulicas e de instrumentação. Na prova de carga convencional, embora a escolha prévia seja tecnicamente recomendável, qualquer estaca já executada pode receber a cabeça de apoio e ser submetida ao ensaio, desde que haja viabilidade de implantação da reação.
  • Preservação do elemento após o ensaio: a prova convencional no topo em regime de serviço permite que a estaca ensaiada seja posteriormente integrada à estrutura da obra como elemento de fundação funcional. Na estaca bidirecional, a expansão da célula cria uma abertura física em sua seção transversal. Para permitir o eventual reaproveitamento da estaca no projeto estrutural, a câmara da célula e os vazios ao redor devem ser rigorosamente preenchidos por injeção de calda de cimento em alta pressão após a conclusão do ensaio, restabelecendo a continuidade do concreto.

Instrumentação e grandezas medidas

Em ambos os ensaios, a instrumentação deve seguir critérios rigorosos para garantir a confiabilidade dos dados obtidos. Na prova de carga estática convencional, mede-se o deslocamento do topo da estaca por meio de quatro transdutores de deslocamento (relógios comparadores ou LVDTs) fixados a vigas de referência independentes (traves de referência). A carga aplicada é monitorada por células de carga calibradas associadas a manômetros hidráulicos de precisão. Opcionalmente, barras de aço indeformáveis apoiadas em diferentes cotas da estaca (tell-tales) ou sensores de deformação específica por fibra óptica e strain gauges podem ser instalados para determinar o encurtamento do fuste e o recalque de ponta.

No ensaio com célula bidirecional, a instrumentação é obrigatoriamente mais complexa, pois as medições no topo da estaca fornecem apenas uma fração da informação necessária. O ensaio exige o registro simultâneo de quatro grandezas fundamentais:

  1. Pressão interna de fluido aplicada à célula expansiva, convertida em força axial de abertura com base na área hidráulica dos pistões e curvas de calibração do dispositivo.
  2. Deslocamento para cima da placa superior da célula, medido por meio de extensômetros mecânicos ou transdutores instalados no interior de tubos guia fixados à armadura.
  3. Deslocamento para baixo da placa inferior da célula, medido igualmente por hastes de referência que alcançam o fundo da estaca.
  4. Deslocamento do topo da estaca em superfície, monitorado por transdutores montados em vigas de referência externas, permitindo mensurar o movimento global da cabeça e o encurtamento elástico do trecho superior.

O diferencial analítico do ensaio bidirecional é que ele separa fisicamente a resistência do trecho superior da resistência do trecho inferior, registrando curvas carga-deslocamento independentes para cada componente durante as etapas de ensaio.

Construção da curva carga recalque equivalente

O resultado bruto de uma prova de carga bidirecional não representa a resposta de uma estaca submetida a carregamento no topo. A célula fornece simultaneamente duas curvas distintas: a curva de carga versus levantamento do trecho superior e a curva de carga versus recalque descendente do trecho inferior. Para transformar esses dados na curva carga versus recalque equivalente de topo, aplicável ao projeto estrutural segundo os limites da ABNT NBR 6122:2022, é mandatório realizar uma interpretação analítica fundamentada no comportamento elasto-geotécnico do elemento.

A conversão exige a compatibilização cinemática dos dois trechos sob o pressuposto de que, em um carregamento real no topo, ambos se movimentam conjuntamente para baixo. Ao analisar o trecho superior solicitado para cima no ensaio bidirecional, o atrito lateral é mobilizado com alívio de peso próprio, ao passo que no carregamento convencional o peso da estaca atua a favor da compressão. Adicionalmente, em uma estaca carregada na cabeça, o fuste sofre encurtamento elástico progressivo ao longo de todo o seu comprimento, enquanto no ensaio bidirecional a compressão descendente elástica afeta apenas a parte inferior, e a parte superior experimenta tração.

A elaboração da curva equivalente envolve a adoção de hipóteses teóricas e empíricas consagradas pela literatura técnica, dependendo do perfil estratigráfico e da rigidez do elemento estrutural.

Método de Silva e Osterberg

O método clássico proposto por Silva e Osterberg baseia-se na hipótese simplificadora de que o atrito lateral mobilizado no trecho superior no sentido ascendente possui módulo e valor último análogos aos que seriam desenvolvidos no sentido descendente, excetuando-se a correção devida ao peso próprio do elemento. Para cada valor de deslocamento adotado, somam-se a carga mobilizada pelo trecho superior (corrigida pelo peso próprio) e a carga do trecho inferior. A carga total no topo é associada a esse deslocamento comum, ao qual se soma o encurtamento elástico adicional que o fuste experimentaria caso toda a carga estivesse transitando a partir da cabeça da estaca.

Abordagem analítica de Massad

Estudos desenvolvidos na Universidade de São Paulo (USP), liderados pelo professor Faiçal Massad, aprofundaram a interpretação da prova bidirecional demonstrando que a soma simplificada de deslocamentos pode induzir a distorções na rigidez inicial da curva equivalente, especialmente em estacas de grande comprimento ou fustes em solos estratificados. A metodologia analítica de Massad emprega formulações diferenciais de transferência de carga, incorporando funções hiperbólicas ou elastoplásticas para descrever a mobilização do atrito lateral local (curvas t-z) e a resposta da base (curva q-z).

O modelo permite desacoplar com maior precisão o efeito do atrito lateral residual, a compressibilidade do concreto sob gradientes de tensão reais de compressão e a influência do nível do lençol freático nas tensões efetivas ao longo do fuste. A aplicação do método de Massad fornece uma reconstituição mais realista da flexibilidade da estaca, evitando superestimativas da rigidez da fundação sob cargas de trabalho.

Contribuições de Falconi, Maset e Cruz nos debates do SEFE

Nos seminários de engenharia de fundações especiais (SEFE), pesquisadores e projetistas como Falconi, Maset e Cruz apresentaram estudos analíticos e comparativos de campo confrontando provas de carga convencionais no topo com provas bidirecionais realizadas em estacas idênticas de obras brasileiras. Esses estudos destacaram aspectos essenciais para a calibração da curva equivalente:

  • Posicionamento da célula expansiva: a cota de instalação da célula deve coincidir com o ponto de equilíbrio de forças estimadas, onde a capacidade de atrito do trecho superior se iguale à soma do atrito e da ponta do trecho inferior. Se a célula for posicionada muito acima ou muito abaixo desse plano neutro, um dos trechos atingirá a ruptura geotécnica prematuramente, limitando a mobilização máxima do outro segmento e obrigando o emprego de métodos de extrapolação matemática (como Van der Veen ou Chin-Kondner) para construir a curva equivalente.
  • Diferenças de atrito em solos arenosos e argilosos: as pesquisas de Maset e Cruz evidenciaram que em solos com forte dependência do estado de tensão vertical efetiva (solos granulares), o atrito lateral mobilizado para cima pode diferir sutilmente daquele mobilizado para baixo devido às alterações no coeficiente de empuxo de repouso e aos mecanismos de dilicância ou compressibilidade na interface concreto-solo.
  • Módulo de elasticidade do concreto: a determinação precisa do módulo de deformação do concreto armado ao longo do tempo é fator crítico na formulação de Falconi e nos estudos de Maset. Pequenas variações adotadas para o módulo elástico alteram significativamente a parcela de encurtamento elástico corrigida na curva equivalente, podendo gerar desvios perceptíveis no recalque final estimado para a carga de projeto.

Quadro comparativo técnico entre as metodologias

A tabela a seguir sumariza as distinções primárias entre a prova de carga estática convencional e o ensaio bidirecional, organizadas pelos aspectos práticos e teóricos mais relevantes:

Aspecto de AvaliaçãoProva de Carga Convencional (PCE)Prova de Carga Bidirecional (PCB)
Norma de ensaio principalABNT NBR 16903:2020 / ASTM D1143ASTM D8169/D8169M-26
Local de aplicação da forçaCabeça da estaca em superfícieInterior do fuste via célula expansiva
Sistema de reação exigidoVigas metálicas, tirantes ou cargueiroAuto-reação entre segmentos da estaca
Área ocupada no canteiroAmpla área para montagem do sistemaRestrita ao perímetro do elemento ensaiado
Grandezas medidas diretamenteCarga no topo e recalque total da cabeçaCarga na célula, deslocamento superior e inferior
Separação de atrito e pontaDepende de instrumentação adicional ao longo do fusteFisicamente obtida a partir da posição da célula
Curva carga-recalque de topoDiretamente fornecida pelos dados de ensaioConstruída por métodos de interpretação analítica
Reaproveitamento como estaca de obraDireto, desde que o ensaio seja interrompido na carga de ensaioRequer injeção posterior de calda de cimento na câmara da célula

Critérios para a seleção do método de prova de carga

A definição entre a realização de uma prova de carga convencional ou bidirecional deve ser conduzida pelo engenheiro projetista e pela consultoria geotécnica com base nas condicionantes do projeto. A prova de carga convencional no topo permanece como o método de referência direta para comprovação dos critérios de aceitação previstos na ABNT NBR 6122:2022, pois reflete exatamente a condição física a que a fundação estará submetida durante a vida útil do edifício, sendo a opção ideal para estacas de pequenas a médias capacidades de carga e canteiros que comportem o sistema de reação.

Por outro lado, o ensaio bidirecional estabelece vantagens técnicas e financeiras determinantes em fundações profundas de grande diâmetro (como estacas escavadas, barretas e tubulões em obras de pontes, viadutos, portos e edifícios altos), onde as cargas de ensaio ultrapassam a viabilidade de montagem de vigas de reação convencionais. Além disso, quando o objetivo da investigação for o aprimoramento do modelo de dimensionamento através do desacoplamento explícito entre a tensão limite de atrito lateral e a capacidade de suporte de ponta, a prova bidirecional fornece dados de controle geotécnico valiosos para a calibração de projetos estruturais arrojados.

Validação técnica e assessoria em ensaios de fundações com a Geoteste

A correta caracterização do comportamento de estacas sob carregamento estático demanda planejamento rigoroso, atendimento irrestrito às normas técnicas e domínio metodológico na interpretação dos resultados de campo. A Geoteste atua em todas as etapas de controle de qualidade e desempenho de fundações profundas, realizando provas de carga estáticas axiais de compressão e tração conforme as especificações da ABNT NBR 16903:2020 e preceitos da ABNT NBR 6122:2022, além de ensaios com instrumentação em profundidade, ensaios de carregamento dinâmico segundo a ABNT NBR 13208 e provas de carga bidirecionais.

Nossa equipe técnica apoia projetistas, fundações e empresas construtoras desde a concepção do plano de ensaios, definição da instrumentação por extensometria e células de carga calibradas, até a construção e análise das curvas carga-recalque equivalentes pelos métodos consagrados de interpretação da literatura geotécnica brasileira. Entre em contato com os especialistas da Geoteste para estruturar o programa de ensaios estáticos de sua obra com precisão técnica e segurança de engenharia.